shhhhhhhhhhhh
não fale nada na despedida:
é impossível gravar silêncio
para as palavras não há medida
nem para a vida, ressentimento
nada se guarda, nada se rasga
não pega fogo durante incêndio
não se esfacela n'água da enchente
não fica mágoa sobre a cadeira
não se faz nada com o não-dito
nem terapia nem desmentido
não se desvenda o vácuo: nem deus
nem mágico nem o infinito.
quarta-feira
domingo
Vento, esse anônimo
Sentado de costas para a janela, na velha cadeira de balanço, jogou a cabeça para trás e viu o azul esplêndido. Dias como estes eram sua mais pura lembrança. O vento frio que vinha da praia, e a praia estava longe. Se pudesse ser uma força da natureza, certamente seria vento. Gelado, mas não congelante. Um vento realmente fresco que viria do sul distante e passara por um rio nascente. Teria percorrido as terras abertas do pampa? Corrido gados, destelhado galpões, entrado pela fresta da camisa do gaúcho e lhe arrepiado os pelos do abdômen? E o gaúcho pensaria na madrezita e dispararia no lombo do animal atrás do cheiro da mãe morta. Ou talvez o vento da praia em movimento chegava ali, agora, pela janela, depois de percorrer tantos quilômetros e carregar tanta areia e mudar geografias, mas já sem força para embalar a cadeira velha. O vento, esse anônimo, era uma lembrança que tinha. De quando não era inverno ou primavera. O entreato. Não se lembrava dele, desse jeito, em dias nublados ou úmidos. Era preciso um céu extensamente azul. E um dia despudoradamente iluminado para fazê-lo ventar em silêncio, mas rápido. A cabeça para trás via o céu e sentia o bom frio. Invisível ali, a memória de que enquanto o vento fosse legítimo, estaria vivo. A memória que corria na velocidade da ventania, mas na direção contrária, rumo ao interior.
quarta-feira
sábado
sexta-feira
Fez-me um chá como desculpa. Assim como cada rosto molda-se único – e, perceba, são bilhões, como exigir repetições de comportamento? Para alguns, há prazer em mijar bêbado; para outros, apenas em mijar. Bebi o chá como aceite. E ofereci-lhe chocolate como se dissesse: desculpo-te. O chá era amargo; o chocolate, meio.
quarta-feira
paixão
Me perguntaram se paixão
é sentimento ou fantasia,
ao que respondi que é
sentimentasia.
asia de ficar sem ti:
pedra, cimento, estômago vazio
paixão é um fogo ao mesmo tempo frio.
é sentimento ou fantasia,
ao que respondi que é
sentimentasia.
asia de ficar sem ti:
pedra, cimento, estômago vazio
paixão é um fogo ao mesmo tempo frio.
São seis e meia na Argentina, e os ônibus estão cheios.
Os motoqueiros param em meio ao rush nos pavimentos
da 9 de Julio
Os motoqueiros argentinos são prateados,
e os táxis pretos e amarelos, e não há negros.
são seis e meia e o amarelo do sol já se foi
enquanto o frio chega, Corrientes está cheia.
Agora há o amarelo homem,
o amarelo farol,
o amarelo do poste,
o amarelo postre
na 9 de Julio num setembro-primavera.
Os motoqueiros param em meio ao rush nos pavimentos
da 9 de Julio
Os motoqueiros argentinos são prateados,
e os táxis pretos e amarelos, e não há negros.
são seis e meia e o amarelo do sol já se foi
enquanto o frio chega, Corrientes está cheia.
Agora há o amarelo homem,
o amarelo farol,
o amarelo do poste,
o amarelo postre
na 9 de Julio num setembro-primavera.
letras para uma música
Se tiver sol, levante
Se tiver sol costante:
lave a roupa com Omo e amaciante,
pendure no vento
bem antes que o mofo se espalhe
Malhe
Se tiver gordo, fome
Ou se amargo, ame
Se tomar chá, madame
Devem ser cinco horas na
Terra de Charles; Quasimodo bate
no lado da mancha
os sinos dourados da Sé Notre Dame
Se tiver perna, dance
Se não tiver, balance
Se tiver mal, engove
Se tiver com vontade:
vire o rosto de lado,
dê um sorriso largo
ande de cavalo
ou apenas a pé ande.
Se for adeus, abane
Se for só dor que doe
Se for só dó não chore
porque há sempre uma história pior
pra lembrar, pra enfrentar ou viver.
terça-feira
sexta-feira
auto-análise
Eu sou Björk, sou Linch,
mais drama do que riso,
menos luxo e mais lixo.
Sou sujo de coração.
Danço Madona, danço Mika;
balanço Adriana. Não gosto
de ação mecânica,
mas gosto da laranja.
Pop brega,
livro de cabeceira
em cama sem ela
Caio, Caetano, Gabriela,
poemas e poetas,
vidas úmidas.
Na cena o melhor é anônimo.
O teatro não precisa de grandes homens.
Impacto camp
Amigos perto e distantes:
Almodóvar, Saura, Lorca.
Rio Grande, gente simples,
mas dentro... um labirinto.
mais drama do que riso,
menos luxo e mais lixo.
Sou sujo de coração.
Danço Madona, danço Mika;
balanço Adriana. Não gosto
de ação mecânica,
mas gosto da laranja.
Pop brega,
livro de cabeceira
em cama sem ela
Caio, Caetano, Gabriela,
poemas e poetas,
vidas úmidas.
Na cena o melhor é anônimo.
O teatro não precisa de grandes homens.
Impacto camp
Amigos perto e distantes:
Almodóvar, Saura, Lorca.
Rio Grande, gente simples,
mas dentro... um labirinto.
quarta-feira
segunda-feira
in process
e se cada um fosse universo
e nossos órgãos os planetas
a Via Láctea a buceta
buracos negros fossem cus
e se o sol engolisse feito boca
o homem é um universo
que pelo sol de tudo come
o lixo atômico é a salada
e tudo que vai ao cu vira nada
...
e nossos órgãos os planetas
a Via Láctea a buceta
buracos negros fossem cus
e se o sol engolisse feito boca
o homem é um universo
que pelo sol de tudo come
o lixo atômico é a salada
e tudo que vai ao cu vira nada
...
terça-feira
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